sexta-feira, 17 de abril de 2015

COMITÉ OLIMPICO DE PORTUGAL -BREVE LEITURA DA SITUAÇÃO DESPORTIVA NACIONAL

"O país tem vindo a assistir placidamente ao definhamento dos
clubes de base local e regional - outrora estruturas essenciais para alimentar o sistema desportivo - que vão perdendo a sua vitalidade gravitando nos interstícios do  associativismo, subsistindo não raras vezes devido ao relevante esforço das autarquias locais para evitar uma morte anunciada". 

Em Portugal, o acesso dos diversos segmentos da população às práticas desportivas informais e de lazer ativo tem vindo gradualmente a crescer, embora mantendo índices de participação ainda longe dos desejáveis; mas é no desporto de excelência que o confronto se apresenta mais desfavorável.
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Portugal tem um número diminuto de modalidades na primeira linha da alta competição mundial e, nas que alcançam esse estatuto, o número de atletas é igualmente diminuto. Os êxitos individuais em competições de primeira grandeza (Jogos Olímpicos, Campeonatos do Mundo ou da Europa) são devidos, na sua maioria, a “exemplares únicos”, circunstancialmente emergentes de contextos particulares e normalmente irrepetíveis, que não refletem nem podem assegurar ao país um nível representativo estabilizado.

O número de atletas filiados nas federações desportivas não apresenta crescimentos significativos e várias são as modalidades em que a tendência é regressiva a números alcançados décadas atrás. Ou seja, ainda que a atividade física desportiva informal ou de lazer ativo ilustre uma maior participação quantitativa no espectro desportivo nacional, o desporto de excelência/alto rendimento tem vindo a tornar-se de difícil sustentabilidade pontuado, aqui e ali, pelo êxito ocasional de alguns excelentes atletas.

Tal só pode ser interpretado à luz de fatores de suporte (económicos, financeiros, fiscais e organizacionais) que têm vindo a sofrer degradações sucessivas, quer pelo distanciamento dos poderes públicos, quer pela pulverização de entidades administrativas com competências sobrepostas que legitimam um ambiente regulador excessivamente saturado e castrador das autonomias associativas, quer ainda pela tomada de medidas manifestamente lesivas deste segmento do desporto nacional.

Uma dimensão cultural deve também ser equacionada neste contexto, mas novamente aqui, o papel das políticas desportivas nacionais é nuclear, em especial no que releva a importância de uma educação física e desportiva nas escolas e a sua interdependência com os níveis elementares do sistema desportivo.

O país tem vindo a assistir placidamente ao definhamento dos clubes de base local e regional - outrora estruturas essenciais para alimentar o sistema desportivo - que vão perdendo a sua vitalidade gravitando nos interstícios do  associativismo, subsistindo não raras vezes devido ao relevante esforço das autarquias locais para evitar uma morte anunciada.

A estes sinais portadores de um futuro preocupante, que traduzem os nossos indicadores de desenvolvimento desportivo no espaço europeu, acrescentamse as dificuldades em encontrar dirigentes que queiram assumir (com gosto e proficiência) a função de gestão e liderança de organizações desportivas.

 Por outro lado, o quadro de carência generalizada ao nível das infraestruturas de qualidade que “explicava” a modesta expressão do país no concerto desportivo das nações foi razoavelmente alterado, sem que os ganhos qualitativos tenham acompanhado esse enorme investimento.

Com efeito, muitos desses equipamentos estão subutilizados, quando não mesmo inoperacionais, e não só porque tenham sido construídos com propósitos majestáticos ou especulativos.

Na verdade, eles são a prova irrefutável de que as “políticas de pedras mortas” são mais fáceis de prosseguir do que as “políticas de pedras vivas” que apostam na promoção dos recursos humanos através de programas com objetivos bem definidos e suscetíveis de mobilizar todos os atores potenciais: associações, atletas, técnicos, dirigentes e famílias.

Muitos dos investimentos realizados foram-no sem uma clara visão da sua justificação e sem um rigoroso estudo e definição estratégica do respetivo efeito catalítico da prática e da qualidade da prática desportiva local, regional e nacional.

Nos últimos anos, no quadro de uma expansão do parque desportivo nacional, verificou-se a disseminação de estruturas e equipamentos oficialmente classificados como Centros de Alto Rendimento (CARs), os quais, em diversos casos, estão longe de reunir os requisitos necessários para uma oferta de serviços nos termos anteriormente mencionados, vulgarizando e banalizando o conceito de “alto rendimento”.

Complementarmente, a convergência de competências, nomeadamente com o sistema científico nacional, tem sido deixada ao sabor de iniciativas pessoais ou de reduzida repercussão global à escala nacional; ao livre arbítrio de um praticante, de um treinador, de um clube ou de uma federação; à iniciativa de um investigador, de um centro de investigação, ou de uma universidade.

  O desporto, enquanto objeto de estudo e investigação científica, está longe dos horizontes imediatos das políticas de Investigação e Desenvolvimento. É um corpo estranho no Sistema Científico Nacional.

No desporto de alto rendimento de hoje, muito em especial no seio das grandes potências desportivas, esta ligação é promovida, nutrida e supervisionada por estruturas centrais que cuidam da efetiva transferência do conhecimento e da respetiva valorização prática.

Também no que respeita aos recursos humanos a situação contém algo de paradoxal. Assistimos a uma elevação considerável, qualitativa e quantitativa, da formação de diversos quadros que interferem no apoio à preparação dos atletas, bem como do suporte tecnológico que melhor permite identificar as necessidades específicas de preparação e os respetivos vetores prioritários de intervenção. O número de especialistas em diversas áreas da preparação desportiva (medicina, fisiologia, nutrição, psicologia ou biomecânica) não tem comparação com a diminuta presença que se registava anteriormente.

Com efeito, as universidades assumiram a formação superior em Desporto e potenciaram a investigação científica e o desenvolvimento tecnológico que a sustenta, rompendo com reservas que perduraram ao longo de gerações; no âmbito do desporto federado, a formação de treinadores impôs novos graus de exigência, beneficiando ao mesmo tempo de formadores mais atualizados e de formandos com níveis de instrução superiores ao que era comum verificar-se. E, apesar de tudo isso, os resultados não confirmam, ainda, as expectativas que seria lícito acalentar.

Trata-se manifestamente de um défice de sistema, devido à inexistência de articulação entre os diversos agentes que não têm oportunidade de interferir nos diferentes vetores do processo de preparação desportiva com as competências que lhes são reconhecidas. Superá-lo implicará necessariamente um compromisso do Estado que viabilize a ação concertada da tutela e das instituições do Sistema Desportivo.

 Referência especial é devida à falta de convergência sistémica entre o sistema desportivo e o sistema escolar, quer nas condições de acesso à prática do desporto, quer, ainda, nas de complementaridade das exigências de preparação desportiva e escolar.

Num país com os mais baixos indicadores de participação desportiva da União Europeia, quer no que respeita à prática regular em atividades físicas e  desportivas, quer na mobilização para o associativismo desportivo, colocar o desporto na agenda política ou conferir-lhe a reclamada relevância num quadro programático para o desenvolvimento do país, à altura do seu contributo para o crescimento económico e impacto social, encontrará inevitavelmente inúmeros condicionalismos enquanto a formação das lideranças politicas, empresarias e associativas se encontrar marcada por uma menorização e desvalorização das atividades físicas e desportivas, desde as etapas iniciais do seu processo educativo.

Há, pois, constrangimentos que precedem e sucedem a questão do financiamento, geralmente colocada no centro de gravidade do sistema desportivo nos termos de injeção de verbas provenientes do Orçamento de Estado, em bom rigor cada vez mais dependente das receitas dos Jogos Sociais, parte da qual é utilizada para suportar custos de estrutura da administração central.

O financiamento é uma questão relevante, mas que não assegura por si só a excelência desportiva de um país, como se pode deduzir da comprovada superioridade olímpica de muitos países cujos indicadores económicos e sociais, ou o seu índice de desenvolvimento humano, os situam abaixo dos valores que Portugal apresenta.

Também aqui, o retorno do investimento financeiro dependerá, em grande parte, da renovação organizacional que, cabendo decerto ao sistema desportivo desenhar e implantar, exige dos órgãos de Governo central e local a disponibilidade para assumir outras perspetivas não triviais sobre o desporto, superando inércias burocráticas e intervenções avulsas e distanciadas, a favor de estratégias devidamente articuladas, integradoras de esforços realmente concatenados para a concretização de objetivos precisos, transformando palavras em ações e ações em ambição indutora de mudança.

Fonte: Comité Olimpico de Portugal

Em próximos posts:Breve leitura do Desporto no Mundo Atual

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